Astragalus membranaceus e os seus efeitos no tratamento do câncer

Astragalus Membranaceus

Astragalus Membranaceus (AM) é uma das principais ervas que são mais utilizadas com finalidade terapêutica na medicina tradicional chinesa. O AM possui diversos compostos bioativos, dentre eles estão os flavonoides e as saponinas, sendo o Astragalosídeo IV, uma saponina esteroide, o principal. Em termos gerais, o extrato da raiz do AM quando comparado com o extrato da planta inteira, contém uma maior concentração de Astragalosídeo IV. Alguns estudos têm demonstrado que esse componente é responsável por promover os efeitos benéficos do consumo dessa erva, que vão desde a reposta anti-inflamatória e antioxidante, tratamento de doenças renais, cardioproteção, prevenção dos efeitos colaterais e deletérios da quimioterapia, entre outros. O Astragalosídeo IV possui baixa biodisponibilidade após o ser consumido (via oral), digerido e absorvido pelo trato gastrointestinal (TGI). A baixa biodisponibilidade tem sido uma das principais barreiras que levam aos resultados inconclusivos dos efeitos do AM na saúde humana. Na tentativa de driblar e essa limitação, boa parte dos estudos clínicos com AM, optam por administrá-lo por via oral com doses elevadas diariamente ou por via injetável, tornando assim muitas das vezes essa replicação de conduta irreal com a prática clínica. Outra medida talvez mais real com a prática clínica do nutricionista é ofertar o AM através de suplementos alimentares com uma maior concentração Astragalosídeo (1).

O AM também é considerado como um Immune Booster, por proporcionar um efeito sobre o aumento da estimulação e ativação do sistema imunológico. Em um ensaio clínico randomizado, o consumo oral de AM (cerca de 1,23g) por um período de 7 dias quando comparado com o consumo de Echinacea Purpurea e Glycyrrhiza Glabra, foi mais eficaz em promover um efeito imunomodulador. No grupo que consumiu AM, foi observado um aumento no número de linfócitos das proteínas que são expressas nas células imunológicas, como: CD4, CD8, CD25 e CD69. Esses efeitos imunomoduladores foram observados 24 horas após o consumo de AM (2). Uma metanálise de ensaios clínicos controlados buscou avaliar o efeito da administração de uma injeção de AM no tratamento da leucopenia induzida por quimioterápico e outras causas. Ao todo foram utilizados 13 ensaios clínicos envolvendo 841 indivíduos para a construção da metanálise. Foi observado que os pacientes que receberam a injeção de AM tiveram um melhor efeito na reversão da leucopenia quando comparado com os indivíduos que não receberam a injeção de AM, demonstrando que de fato o AM parece exercer um importante efeito sobre a imunidade (3).

consumo de astragalus

Em relação ao câncer, especula-se que o AM possa ser um importante agente terapêutico no controle dos efeitos deletérios e colaterais durante o tratamento quimioterápico. Uma recente metanálise construída a partir de 27 ensaios clínicos randomizados totalizando em uma amostra de 1.843 participantes, demonstrou que o consumo de AM reduziu significantemente os sintomas de vômitos e náuseas induzidos por oxaliplatina durante a quimioterapia em pacientes portadores de câncer colorretal metastático (4). Outra metanálise envolvendo 32 ensaios clínicos randomizados e 2.224 pacientes com CCR, demonstrou que o consumo oral de AM sinergicamente com a oxaliplatina, foi eficiente na prevenção da neutropenia induzida por quimioterapia (5). Uma revisão sistemática avaliou o efeito da adição de medicamentos fitoterápicos (entre elas a base de AM) durante a quimioterapia do CCR. Um total de 13 ensaios clínicos randomizados foram incluídos na revisão sistemática. Foi observado que o AM é frequentemente utilizado durante a quimioterapia e que o seu consumo foi capaz de aumentar a taxa de sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes. Além disso, os pacientes que utilizaram o AM, tiveram uma redução dos efeitos deletérios induzidos pela quimioterapia, como vômitos, náuseas, neutropenia e neurotoxicidade, quando comparado com os pacientes que foram apenas submetidos a quimioterapia (6). Outra metanálise construída a partir de 19 ensaios clínicos randomizados, totalizando em uma amostra de 1.635 pacientes, avaliou o efeito da administração injetável de AM combinada com a quimioterapia a base de platina em pacientes com câncer de pulmão. O resultado da metanálise demonstrou que, quando comparado apenas com a quimioterapia isoladamente, a quimioterapia combinada com as injeções de AM teve efeitos positivos sobre o aumento da sobrevida dos pacientes, reduziu a incidência de leucopenia, aumentou a expressão de moléculas CD3, CD4, CD8 e das células natural killer (NK), além de reduzir os efeitos colaterais como vômitos e enjoo. Vale salientar que as células NK são as principais células imunológicas responsáveis pela resposta anti-tumoral (7). Em relação ao câncer de estômago, uma metanálise que incluiu 81 ensaios clínicos randomizados totalizando em uma amostra de 5.978 pacientes com câncer, demonstrou que a combinação da injeção de AM em sinergia com quimioterapia, foram eficientes na prevenção da leucopenia e das reações adversas que acometem o TGI. Outra metanálise envolvendo 3.289 pacientes com câncer de esôfago também demonstrou que a injeção de AM sinergicamente com a quimioterapia, foi capaz de melhorar a qualidade de vida desses pacientes, além de reduzir a incidência da leucopenia e sintomas como náuseas, quando comparado com os pacientes que foram submetidos apenas ao tratamento quimioterápico (8).

Apesar de observamos vários efeitos benéficos do consumo de AM sobre a imunidade e no tratamento dos efeitos colaterais induzidos pela quimioterapia no câncer, mais estudos (em especial em seres humanos) são necessários para uma confirmação mais sólida e concreta de seus efeitos, para que assim sejam criados guidelines seguros e eficazes para indicações de consumo/suplementação de AM no manejo clínico das patologias.

 

Referências bibliográficas:

  • 1. FU, Juan et al. Review of the botanical characteristics, phytochemistry, and pharmacology of Astragalus membranaceus (Huangqi). Phytotherapy Research, v. 28, n. 9, p. 1275-1283, 2014.
  • 2. ZWICKEY, Heather et al. The effect of Echinacea purpurea, Astragalus membranaceus and Glycyrrhiza glabra on CD25 expression in humans: a pilot study. Phytotherapy Research: An International Journal Devoted to Pharmacological and Toxicological Evaluation of Natural Product Derivatives, v. 21, n. 11, p. 1109-1112, 2007.
  • 3. ZHANG, Changsong et al. The clinical value of Huangqi injection in the treatment of leucopenia: a meta-analysis of clinical controlled trials. PloS One, v. 8, n. 12, p. e83123, 2013.
  • 4. CHEN, Meng Hua et al. Integrative medicine for relief of nausea and vomiting in the treatment of colorectal cancer using oxaliplatin?based chemotherapy: A systematic review and meta?Phytotherapy Research, v. 30, n. 5, p. 741-753, 2016.
  • 5. CHEN, Menghua et al. Oxaliplatin-based chemotherapy combined with traditional medicines for neutropenia in colorectal cancer: a meta-analysis of the contributions of specific plants. Critical Reviews in Oncology/Hematology, v. 105, p. 18-34, 2016.
  • 6. CHEN, Menghua et al. FOLFOX 4 combined with herbal medicine for advanced colorectal cancer: a systematic review. Phytotherapy Research, v. 28, n. 7, p. 976-991, 2014.
  • 7. CAO, Ailing et al. Evidence of Astragalus injection combined platinum-based chemotherapy in advanced nonsmall cell lung cancer patients: A systematic review and meta-analysis. Medicine, v. 98, n. 11, 2019.
  • 8. GE, Long et al. Network meta-analysis on selecting Chinese medical injections in radiotherapy for esophageal cancer. 2015.

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